14 de agosto de 2026 15:49

Trabalho desleixado de IA custa US$ 9 milhões a empresas

40% dos trabalhadores recebem workslop; retrabalho gera perdas de US$ 9 milhões


 

 

 

A adoção acelerada de inteligência artificial no ambiente corporativo criou um efeito colateral caro: o chamado workslop, conteúdo gerado por IA que parece profissional, mas exige revisão, correção e novas rodadas de trabalho. Levantamento da BetterUp Labs em parceria com a Stanford Social Media Lab aponta que 40% dos trabalhadores já receberam esse tipo de material, que responde por 15,4% de todo o conteúdo recebido por esses profissionais.

O termo workslop, traduzido livremente como “trabalho desleixado”, descreve entregas superficiais produzidas no lugar de análises consistentes. Em vez de aumentar a produtividade, o resultado é retrabalho, atraso no desenvolvimento profissional e desgaste nas equipes, especialmente entre os profissionais mais jovens.

 

O custo do retrabalho

Os prejuízos já foram mensurados. De acordo com a BetterUp Labs, cada ocorrência de workslop consome, em média, 1 hora e 56 minutos do trabalhador que precisa conferir informações, corrigir erros ou refazer parte da tarefa. Isso representa uma perda estimada em US$ 186 por mês para cada funcionário afetado.

Em uma organização com 10 mil trabalhadores, o prejuízo anual pode ultrapassar US$ 9 milhões em produtividade desperdiçada. O problema não desaparece quando o conteúdo entra no fluxo de trabalho: ele apenas muda de mãos, com alguém assumindo o conserto de lacunas e interpretações equivocadas.

 

IA como atalho intelectual

Para o neurocientista Miguel Nicolelis, há uma crença generalizada de que ferramentas de IA poderiam substituir etapas importantes do pensamento humano, do trabalho ao estudo. O resultado, afirma, é uma espécie de “atalho intelectual”, em que tarefas que exigiam construção de conhecimento passam a ser delegadas a sistemas que produzem respostas nem sempre confiáveis.

Luciana Morilas, especialista em trabalho da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), afirma que grande parte das organizações ainda tenta entender como incorporar as ferramentas às rotinas. Muitos profissionais usam IA sem treinamento adequado e sem compreender quais sistemas são mais apropriados para cada atividade. “O problema é que a velocidade da entrega nem sempre acompanha a qualidade”, diz.

Expectativa versus realidade

Estudo global do Upwork Research Institute, feito com 2,5 mil profissionais, mostra uma diferença de expectativas. Enquanto 96% dos executivos acreditam que a IA vai aumentar a produtividade, 77% dos profissionais afirmam que a carga de trabalho aumentou. O levantamento também revela que 81% dos líderes elevaram as expectativas sobre suas equipes após a adoção da IA, enquanto 71% dos trabalhadores relatam sinais de burnout.

Na prática, o uso diário mostra os limites da tecnologia. João Quessada, desenvolvedor de software, diz que a IA agiliza tarefas que antes consumiam três ou quatro dias, reduzindo o prazo para um dia. “Às vezes, ela não é 100% certeira. Em vez de ligar o ponto A ao ponto B, liga o ponto A ao ponto C e depois volta para o B”, resume. Diogo Ferreira, profissional de tecnologia em uma empresa do agronegócio, conta que a IA ajuda a organizar ideias e acelerar etapas operacionais, mas a validação e as decisões continuam sob sua responsabilidade. “Quando você aprofunda, percebe que pode faltar contexto ou que a solução proposta está genérica demais. Para identificar isso, é preciso conhecer o assunto”, afirma.

 

Falta de governança

O avanço da tecnologia tem ocorrido mais rápido do que a criação de políticas para orientar seu uso. Relatório da IBM indica que 87% das organizações brasileiras não possuem práticas formais de governança em inteligência artificial, o que deixa espaço para uso inadequado e para a proliferação do workslop.

 

Relações e confiança

Receber conteúdo superficial também provoca irritação, confusão e desgaste entre colegas. Segundo a BetterUp Labs, 53% dos trabalhadores afirmam sentir irritação diante de episódios de workslop, e 38% relatam confusão e até sensação de desrespeito ao perceber que precisam gastar tempo corrigindo algo que deveria ter chegado pronto. Aos poucos, o problema compromete relações de confiança e colaboração, fundamentais para o funcionamento das organizações.

Para especialistas, evitar o workslop passa por treinamento, supervisão e pensamento crítico no uso das ferramentas. A discussão envolve como a IA está transformando a rotina de trabalho, a qualidade do que é produzido e os riscos de dependência crescente desses sistemas.

 

 

 

Fonte: SpaceMoney