5 de agosto de 2026 18:06

Mistério resolvido? Cataratas de Sangue da Antártida escondem vestígios de antigo mundo marinho sob o gelo

Pesquisa publicada na Nature Geoscience encontrou microrganismos preservados sob a geleira Taylor, reforçando a origem da água avermelhada

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Você já se perguntou por que uma cachoeira vermelha escorre em um dos lugares mais frios do planeta? Um estudo publicado nesta segunda-feira (3) na revista Nature Geoscience trouxe a evidência mais robusta até agora para explicar o mistério das Cataratas de Sangue, na Antártida: a água salgada que emerge sob a geleira Taylor abriga descendentes de antigos microrganismos marinhos isolados sob o gelo há centenas de milhares de anos.

A pesquisa analisou 167 amostras de água, sedimentos, gelo e ar coletadas nos Vales Secos de McMurdo e identificou, por meio de sequenciamento de DNA, milhares de microrganismos vivendo no local. Segundo os autores, espécies típicas do ambiente marinho, como diatomáceas, haptófitas, dinoflagelados e ciliados, permanecem preservadas no sistema subterrâneo alimentado por salmoura rica em ferro. No artigo, os pesquisadores descrevem a região como “um raro refúgio marinho no deserto polar”.

Evidências de um antigo oceano sob o gelo

 

A descoberta reforça a hipótese de que a água avermelhada teve origem no mar antes de ficar aprisionada pelo avanço da geleira. Os cientistas constataram que 9,34% dos microrganismos encontrados nas Cataratas de Sangue também estavam presentes em amostras oceânicas próximas, percentual muito superior ao registrado em outras áreas dos Vales Secos da Antártida. Para a equipe, essa forte assinatura biológica dificilmente poderia ser explicada apenas pelo transporte de microrganismos pelo vento.

A coloração vermelha, que tornou o fenômeno famoso, é resultado da oxidação da água extremamente salgada e rica em ferro quando ela entra em contato com o oxigênio da atmosfera. Apesar da temperatura em torno de -7°C, a elevada concentração de sal impede o congelamento completo da água, permitindo que ela continue fluindo sob a geleira.

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Montagem da cascata de sangue — Foto: Reprodução/Instagram

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Os pesquisadores também verificaram que muitos desses microrganismos permanecem biologicamente ativos. As análises genéticas indicam que eles ainda realizam processos como fotossíntese, reparo celular e mecanismos de resposta ao estresse para sobreviver às condições extremas. Algumas espécies, segundo o estudo, conseguem entrar em estado de dormência até que o ambiente volte a ser favorável.

Descobertas inicialmente em 1911 pelo geólogo australiano Griffith Taylor, as Cataratas de Sangue têm cerca de cinco andares de altura e ficam na região dos Vales Secos de McMurdo, uma das áreas mais frias e áridas da Terra. Para os cientistas, esse ecossistema preservado oferece uma oportunidade única de reconstruir a história geológica da Antártida e compreender como formas de vida resistem a mudanças climáticas extremas ao longo de centenas de milhares de anos. Além disso, o estudo ajuda a esclarecer a evolução das geleiras do continente, que concentram cerca de 70% da água doce do planeta e desempenham papel fundamental na regulação do nível dos oceanos e do clima global.

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Fonte: O Globo