A nova bússola endurece limites para o nível adequado de pressão arterial e combate a inércia no tratamento
“Assassina silenciosa.” Foi com essa alcunha que a hipertensão ganhou a merecida preocupação da classe médica e da sociedade no desenrolar do século XX. Um episódio emblemático, envolvendo uma vítima ilustre, ajudou a mobilizar estudos e esforços diante de uma condição até então pouco divulgada: o presidente americano Franklin D. Roosevelt (1882-1945), figura seminal na Segunda Guerra Mundial sucumbiu aos 63 anos depois de um derrame. A causa, como se descobriu em seu prontuário, era a hipertensão. Hoje, bilhões de pessoas pelo mundo, independentemente do lugar e da classe econômica, convivem com o problema marcado pelo “aperto” nos vasos sanguíneos que não costuma dar sinais até que os estragos aconteçam. E eles acontecem. A pressão alta é o principal fator de risco para o acidente vascular cerebral (AVC), a maior causa de morte entre os brasileiros, além de patrocinar infartos e outras complicações. Diante de um desafio de saúde pública que atinge cerca de 30% da população, a medicina revisa, de tempos em tempos, as melhores medidas de controle e prevenção.

Nessa etapa, ainda não são necessários medicamentos, mas sim mudanças de estilo de vida, como não fumar, ter hábitos alimentares saudáveis, perder peso para o IMC ficar entre 18 e 24 kg/m2, reduzir ingesta de sal e aumentar a de potássio, realizar atividade física, diminuir o consumo de álcool e controlar o estresse.
No entanto, se o paciente pré-hipertenso já estiver com a pressão acima de 13 por 8, tiver alto risco cardiovascular e não conseguir controlá-la com três meses de mudanças nos hábitos, os remédios passam a ser indicados. O objetivo geral é que todos os pacientes estejam sempre com a pressão abaixo de 13 por 8, independentemente da idade ou de doenças associadas.
As novas diretrizes acompanham mudanças semelhantes feitas na Europa e nos Estados Unidos. No ano passado, a Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC, da sigla em inglês) definiu que uma pressão a partir de 12 por 7 passava a integrar uma categoria nova chamada de “pressão elevada”, que vem antes da hipertensão propriamente dita. A classificação já era utilizada nos EUA desde 2017.
As alterações seguem evidências científicas mais recentes que mostraram que os efeitos na saúde dos diferentes valores que antes englobavam a faixa considerada “normal” não eram iguais. Um aumento da pressão, ainda que não suficiente para ser diagnosticado como hipertensão, já é associado a maiores riscos à saúde e pode se beneficiar de um tratamento.
O especialista do Instituto Nacional de Prevenção e Saúde Cardiovascular da Irlanda, John William McEvoy, autor das novas diretrizes europeias, resumiu na época que a mudança serve “para refletir que o risco de doenças cardiovasculares atribuível à pressão alta está em uma escala de exposição contínua, e não é uma escala binária de normotensão (pressão normal) versus hipertensão”.

Em 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um primeiro grande relatório sobre hipertensão e apontou que 1 a cada 3 adultos no planeta tem pressão alta, porém metade não sabe e somente 1 a cada 5 segue o tratamento adequado. No Brasil, a situação é um pouco melhor: embora uma parcela maior da população adulta tenha hipertensão (45%), 62% dos pacientes realizam o tratamento.






