Com boas risadas e algumas doses de identificação, três peças brasileiras colocam a menopausa sob os holofotes e mostram que rir (de si mesma) é um poderoso antídoto para atravessar essa etapa
A menopausa está no centro das discussões! Três peças nacionais têm em comum a fase feminina como tema, além de humor, enredos em parte autobiográficos, informação e excelentes atrizes. A novidade é Mulheres em Chamas, que estreou em São Paulo nesta semana, com as atrizes Miá Mello, Camila Raffanti, Juliana Araripe e direção de Paula Cohen. Claudia Raia estrela Cenas da Menopausa, que fica em cartaz na capital paulista até agosto, enquanto Ângela Dippe encena Da Puberdade à Menopausa desde 2024, e foi uma das precursoras em levar esta fase da vida aos palcos.
Depois do boom vivido pelo tema em séries e livros, essa é a hora do tablado. Viva! Eu celebro. Adoro ver o interesse crescente pela saúde feminina e a distância cada vez maior entre o presente e o tempo em que a menopausa era um tabu.
Mulheres em Chamas
Recém-lançada no último 2 de julho, estreou em São Paulo Mulheres em Chamas. Adorei o elenco da nova peça, um trio composto por atrizes de 40 anos. É por essa idade, afinal, que o climatério começa a acontecer, podendo durar cerca de 10 anos, até que o corpo feminino pare de ovular e sangrar por 12 meses seguidos. Mas mesmo antes desse um ano sem sangramento, aparecem os sintomas.
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A atriz Camila Raffanti, parte do elenco, teve uma ajuda especial no, digamos, pré-diagnóstico do climatério. “Meu marido me alertou, foi ele quem percebeu que eu estava vaporizando no meio da noite de tão quente que eu ficava”, conta. “A comédia e a tragédia andam coladas todos os dias”, me respondeu Juliana Araripe quando perguntei sobre o momento mais tragicômico que viveu durante o climatério. Já Miá Mello compartilhou sobre uma crise de choro por causa de uma… pasta de atum. “Eu tinha feito e guardado. Estava morrendo de fome, cansada, abri a geladeira e a adolescente tinha comido”, brincou.
O que seria corriqueiro, virou choro e conversa. “Descobrimos que a puberdade e menopausa têm muitas similaridades”, diz Miá. De fato: quem tem filhas adolescentes, vive mais de uma transição hormonal em uma mesma casa. Pode ser bom, afinal, empatia. Mas também pode ser dificílimo, porque, durante as transições hormonais, a empatia pode faltar. Daí a importância quase vital do bom humor e o meu convite: vá ao teatro. Informe-se e divirta-se.
“Com a peça, criamos um repertório para as mais jovens e um lugar de acolhimento e identificação para quem está vivendo a menopausa. Fazendo isso na comédia, acredito que tudo fica mais potente. Rir é uma comunhão”, fala a atriz Camila Raffanti. Concordo. “Estamos fazendo check-in na senhora que queremos ser”, afirma Juliana Araripe. Gostei tanto dessa fala. Explico o porquê: ao escrever por mais de sete anos sobre mulheres 50+, esbarrei em todo tipo de preconceito. Um dos mais fortes acontecia, e ainda acontece, através de mulheres de 40 e poucos, talvez iludidas pelo “comigo não”… como se fosse possível desviar dos ciclos femininos e/ou da passagem do tempo.
Por isso, quando leio “Estamos fazendo check-in na senhora que queremos ser”, abro um sorriso aliviado. É isso! É importante ter informação antes de experimentar a revolução hormonal. Eu amaria ter tido acesso a informações claras sobre sintomas e tratamentos antes de entrar no climatério. Poderia ter sido mais fácil, mais saudável e mais divertido. Importante saber: rir é um dos melhores remédios nessa fase da vida.
Não por acaso, Mulheres em Chamas é uma peça de humor. Presas em um elevador, as personagens compartilham angústias, memórias e delírios, atravessadas por mudanças do corpo, pressão social e medo de perder o desejo. O figurino também merece atenção e é assinado pela estilista Iara Wisnik, nome forte na moda sustentável e atemporal.
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“O elevador simboliza essa paralisia temporária do climatério. Quando as portas se abrem, estamos mais conscientes”, comenta Camila Raffanti. A encenação transita entre o cotidiano e o absurdo. “Trouxemos o dia a dia, o explosivo, o hormonal — e é aí que surgem os momentos mais surrealistas”, diz Miá. A saber: um pentelho branco ganha voz e os hormônios fazem piquete numa greve. A peça fica em cartaz até o dia 28 de agosto.
As atrizes de Mulheres em Chamas estão ligadas à peças de teatro inovadoras, divertidas e muito bem-sucedidas, como Mãe Fora da Caixa e Confissões das Mulheres de 30. E eu também adorava vê-las na série de comédia Mothern, da GNT. Lembra?
Cenas da Menopausa
O espetáculo de Claudia Raia está em cartaz em São Paulo, depois de uma temporada muito bem sucedida em Portugal. Na comédia musical Cenas da Menopausa, Claudia Raia interpreta diferentes mulheres para abordar os sintomas, as mudanças, os momentos tragicômicos da menopausa. Entre as personagens está Teresa, casada há anos, mãe de dois filhos. Laurinha é outra personagem, divorciada e superjovial. Os papéis masculinos cabem ao Jarbas Homem De Mello, que também dirige o espetáculo. A peça ainda apresenta uma coletânea de hits dos anos 80 e 90 em paródias de situações menopáusicas. Um espetáculo nível casal Raia de Mello, que fica em cartaz até o dia 31 de agosto.
“As pessoas precisam se informar, porque a menopausa não atinge só a mulher, ela atinge a família, o ambiente de trabalho, o casamento. Então todo mundo ‘menopausa’ junto”, fala Claudia Raia em um dos vídeos de divulgação sobre sua nova peça.
Da Puberdade à Menopausa
Foi Angela Dippe que deu a largada com o monólogo escrito, dirigido e encenado por ela, aos 61 anos, o Da Puberdade à Menopausa. A peça já passou por cidades do Sul do país, por capitais como São Paulo e Rio de Janeiro. Apesar de estar em pausa agora, torcemos para que volte logo. No palco, Dippe faz um espetáculo que combina stand-up comedy e palestra, passando por temas como relacionamentos amorosos, padrão de beleza, cultura do patriarcado, machismo, sexo na maturidade e etarismo. A abordagem é pessoal, mas embasada em informações científicas e históricas, sempre com muita irreverência e o propósito de desmitificar tabus.
“Escrevi a peça em dez dias, mas reunindo ideias anotadas ao longo de anos. O título diz tudo, é da puberdade à menopausa. Todas as mulheres se identificam”, disse. “Homens se relacionam com mulheres, então as situações que aparecem na peça também dizem respeito a eles”, completa a comediante gaúcha de quem sou fã. A peça vai e volta para os palcos. Fique atenta no @angeladippe para saber das novidades da atriz e as próximas datas do espetáculo.
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Fonte: Vogue






